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UFCA participa de projeto que pretende recuperar o ambiente do soldadinho-do-araripe

Matéria originalmente publicada pela Universidade Federal do Cariri

Foto: Fábio Nunes - Aquasis



O soldadinho-do-araripe, ave encontrada nas encostas da Chapada do Araripe e que está no brasão da Universidade Federal do Cariri (UFCA), corre o risco de desaparecer. Classificado como criticamente em perigo de extinção, o pássaro precisa de um ambiente adequado com água e vegetação própria, que favoreça a alimentação e a produção de ninhos. Com o desmatamento e a degradação da vegetação e dos mananciais da Chapada do Araripe, a sobrevivência da ave tornou-se difícil. Este ano a Universidade Federal do Cariri (UFCA) passou a somar esforços junto à Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) para recuperação do ambiente do soldadinho-do-araripe e a consequente preservação da sobrevivência do pássaro. A Aquasis, por meio do projeto Oásis Araripe, está na região do Cariri desde 2004, com o desenvolvimento de políticas públicas, planos e ações que protejam os ambientes habitados pela ave. A parceria com a UFCA atuará especificamente no enriquecimento florestal das áreas que o pássaro ocupa, uma das ações de proteção desses ambientes. Assim, a professora e pesquisadora do Centro de Ciências Agrárias e da Biodiversidade (CCAB/UFCA), Wanessa Nepomuceno, está trabalhando com a equipe da Aquasis na produção de mudas de espécies nativas da Chapada do Araripe. Esse trabalho já vem sendo feito ao longo dos anos, porém, com essa junção de esforços, a intenção é acelerar a reprodução dessas plantas.

“A gente quer otimizar a produção de mudas, então, para cada espécie, precisamos identificar de que forma as sementes germinam mais rápido e em maior quantidade”, explicou Wanessa.

O objetivo, ao final dos experimentos, é produzir um protocolo de produção de mudas, que é um tipo de manual de instruções de como fazer as espécies germinarem mais rápido e, assim, produzir plantas que possam ajudar no enriquecimento florestal do ambiente do soldadinho-do-araripe.

“Estamos testando como fazer com que nosso esforço de produção seja o menor possível para um resultado máximo. Tudo o que a gente mais precisa para esse animal é economizar tempo. Um ano que a gente atrasa [na produção de mudas] traz impacto na população desse animal. Já existiam ações desde o começo do projeto e já havia ações de plantio de arbustos, mas agora estamos aprimorando isso”, ressaltou o Weber Girão, gerente do projeto Oásis Araripe.

Produção de mudas


Em março deste ano, a parceria entre UFCA e Aquasis deu início aos testes para reprodução de mudas com a coleta de sementes de sete espécies nativas da floresta úmida – dois tipos de candeeiro-d’água, quaresminha, murici, periquiteira, rosa-da-mata e café-brabo.

“São plantas estratégicas à sobrevivência do soldadinho-do-araripe, pois compõem a dieta e servem de suporte na construção dos ninhos, importantes no ciclo de vida desta ave”, destacou a bióloga Karina Linhares, coordenadora do Projeto Oásis Araripe.

O experimento, conforme Wanessa Nepomuceno, foi feito com 7 mil sementes e tem o objetivo inicial de produzir pelo menos 2 mil mudas. Para cada espécie, foram testados dez tratamentos diferentes com o intuito de acelerar o tempo de germinação. Parte desse processo contou com a estrutura laboratorial disponível no CCAB/UFCA e, em seguida, as sementes foram semeadas no viveiro da Reserva Particular do Patrimônio Natural (RPPN) Oásis Araripe, onde estão sendo monitoradas.

Imagem do experimento montado na RPPN Oásis Araripe. Foto: Divulgação
“A gente precisa fazer diversos testes para observar como a semente pode germinar melhor. (…) Utilizamos tratamentos como: água quente, ácido sulfúrico, ácido giberélico… Como existem poucos estudos sobre a germinação dessas espécies, não sabemos em quanto tempo teremos respostas. Uma espécie pode demorar meses para começar a germinar”, explicou Wanessa. A observação do tipo de tratamento que dará certo para as sementes germinarem mais rápido faz parte do processo de construção do protocolo de produção de mudas. “Estamos chamando de ‘primeira rodada de testes’, porque pretendemos testar outros tratamentos”, ressaltou a professora.

No total, dez pessoas ajudaram na montagem do experimento. Entre o grupo estavam alunos de iniciação científica da UFCA.


Dormência das sementes


Todo esse experimento é necessário para conseguir romper com um processo natural que ocorre em algumas espécies florestais, chamado dormência da semente. Conforme a professora Wanessa Nepomuceno, a maioria das espécies cultivadas, como milho e feijão, germinam rápido e já têm protocolos de germinação bem conhecidos. Porém, em espécies florestais, é comum a presença de sementes com baixa germinação, mesmo quando colocadas em condições ideais de umidade, temperatura e substrato. E isso é por um mecanismo de proteção da própria espécie.

“Ecologicamente falando, é um fenômeno que permite que a espécie consiga formar um banco de sementes viáveis no solo. A dormência permite a distribuição da germinação ao longo do tempo. Se germinarem todas ao mesmo tempo e ocorrer alguma condição desfavorável, todas as plântulas ficariam suscetíveis. Então, a dormência diminui a competição e aumenta a probabilidade de sobrevivência da espécie”, detalhou Wanessa.

Apesar de ser um fenômeno de proteção das espécies, a dormência dificulta ações de reflorestamento. O experimento busca então superar essa condição natural das plantas florestais, com o objetivo de produzir mudas mais rapidamente, de modo a acelerar a recuperação do habitat do soldadinho-do-araripe. As mudas produzidas pelas sementes germinadas no experimento serão plantadas no ambiente do pássaro. Depois disso, tem a segunda fase da ação, que é o monitoramento do crescimento dessas mudas.


Educação ambiental


Além do experimento e da construção do protocolo de produção de mudas dessas espécies vegetais, a UFCA também participa da parceria com ações de educação ambiental. A estudante Kelli Cristina Cunha de França, do quarto semestre de Agronomia, foi selecionada, por meio de um edital, como bolsista da Aquasis, com financiamento do Sistema Social do Comércio (Sesc), para desenvolver ações sobre o soldadinho-do-araripe nas escolas e universidades da região do Cariri. Ela também ficará na equipe de acompanhamento do experimento.


As ações que a UFCA está envolvida junto ao Projeto Oásis Araripe contam com incentivo financeiro de órgãos internacionais, como American Bird Conservancy (ABC) e Brazil Foundation, por meio do Fundo Luz Alliance. A duração da parceria, a princípio, é de um ano, mas a ideia, conforme Wanessa Nepomuceno, é que esse trabalho conjunto seja duradouro.

“Nossa intensão também é divulgar o projeto e aumentar a rede de apoio dentro e fora da universidade para que possamos multiplicar as ações de conservação do soldadinho-do araripe”, ressaltou a professora.

Soldadinho-do-araripe


O soldadinho-do-araripe até 1998 era desconhecido pela ciência e por boa parte da população. Os poucos habitantes das encostas da Chapada do Araripe que o conheciam utilizavam diversos nomes para chamá-lo, como lavadeira-da-mata, galo-da-mata, cabeça vermelha-da-mata, língua-de-tamanduá, uirapuru-matreiro, entre outros.


Os nomes indicam o habitat florestal e a associação com a água. É essa última, inclusive, que vem das nascentes da Chapada do Araripe, que proporciona o abastecimento da vegetação da área onde fica o pássaro, conforme Weber Girão.


A ave habita os municípios de Missão Velha, Crato e Barbalha, sempre ocupando as florestas úmidas das encostas da Chapada do Araripe. Existem duas unidades de conservação federais que têm papel significativo na conservação do pássaro: a Floresta Nacional do Araripe (Flona do Araripe) e a Área de Proteção Ambiental da Chapada do Araripe (APA da Chapada do Araripe).


A morada do soldadinho-do-araripe encontra-se quase totalmente inserida na APA da Chapada do Araripe, porém, conforme Weber Girão, a Flona também é de fundamental importância pois é nessa área, localizada no topo da chapada, onde é produzida a água que abastece a vegetação de encosta. “A Floresta (Flona) provê a água que abastece o ambiente do soldadinho-do-araripe”, ressaltou.


A conservação do pássaro está totalmente relacionada à preservação do espaço onde ele vive. De acordo com Weber Girão, mesmo que o soldadinho-do-araripe se reproduzisse bem em cativeiro, ainda assim faltaria floresta para ele ocupar.


Nos últimos anos, de acordo com o monitoramento feito pela Aquasis, em virtude dos sucessivos bons anos de chuva, o pássaro tem conseguido se recuperar melhor, mas não é de forma uniforme em todos os ambientes da chapada.


“Missão Velha e Crato estão conseguindo se recuperar e Barbalha, não. Em Barbalha temos muitas fontes degradadas, mal geridas e isso pode ter relação”, destacou Weber, mais uma vez ressaltando a importância da água para o ambiente do pássaro.

O soldadinho-do-araripe é uma ave que apresenta muita diferença entre os sexos. O macho, imagem que se tornou mais conhecida, tem plumagem preta e branca e um vistoso topete vermelho no topo da cabeça. Foi o topete, semelhante a um capacete romano, que inspirou seu nome popular. Já a fêmea é verde oliva, assim como os filhotes antes de atingirem a maturidade, quando mudam as penas.



Centro de Ciências e da Biodiversidade (CCAB/UFCA)

ccab@ufca.edu.br



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