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Tico, o peixe-boi solto no Ceará no mês de Julho, já viajou mais de 3000km e está na Costa do Caribe

A equipe da Aquasis está em busca de apoiadores, parceiros e patrocinadores para trazê-lo em segurança de volta ao Ceará.

Resgatado ainda recém nascido em 2014 pela Aquasis, Tico permaneceu em reabilitação, sob cuidados humanos, durante sete anos. | Foto: Mika Holanda

 

Tico é um peixe-boi-marinho (Trichechus manatus) que foi resgatado pela equipe da ONG Aquasis, em 2014, quando ainda era um recém-nascido, após encalhar na Praia das Agulhas, em Fortim, no Ceará. Os encalhes de filhotes dessa espécie são mais frequentes no litoral semi-árido do nordeste, nos estados do Ceará e Rio Grande do Norte, devido a perda de áreas favoráveis para as fêmeas parirem e cuidarem das suas crias. Por se tratar de uma espécie ameaçada de extinção, que conta com cerca de 1100 indivíduos no país, a reabilitação e posterior soltura desses indivíduos representa uma das principais estratégias para a recuperação das populações e a sua conservação.


Tico permaneceu em reabilitação, sob cuidados humanos, durante sete anos. Foi mantido por seis anos no Centro de Reabilitação de Mamíferos Marinhos da Aquasis, em Caucaia/CE, e posteriormente levado para um cativeiro localizado no mar, na Praia de Peroba, em Icapuí/CE, onde ficou mais de um ano em adaptação às condições do ambiente natural. O animal foi solto no dia 06 de julho de 2022 nas imediações do cativeiro, com um transmissor que permite seu rastreamento preso a sua cauda. Alguns dias após a soltura, Tico se deslocou para águas profundas, ainda no Ceará, o que levou a equipe a decidir pelo seu resgate, uma vez que peixes-bois são animais costeiros, que se alimentam de plantas encontradas em águas rasas, e sua sobrevivência estaria ameaçada. Devido ao seu rápido deslocamento o resgate se tornou cada vez mais difícil. A equipe acompanhou a movimentação do animal por terra, através dos sinais de gps emitidos pelo equipamento, e tentou articular embarques desde o Ceará ao Amapá, porém sem sucesso, devido a grande distância da costa e ausência de condições logísticas favoráveis e seguras para realizar a operação.


No final de julho o animal atingiu águas internacionais, na altura da Guiana Francesa, o que limitou ainda mais os esforços de resgate. Com o passar dos dias acreditava-se que o animal pudesse ter morrido, devido as condições de alto mar inóspitas para um peixe-boi. Os sinais do transmissor continuaram sendo monitorados para avaliação de estratégias para a sua recuperação e melhor compreensão dos fatos. Por volta do dia 22 de agosto de 2022 foi verificada a aproximação da costa de Trinidade e Tobago. Pesquisadores do país foram contatados e auxiliaram na verificação do equipamento após o repasse das coordenadas geográficas. De forma surpreendente, no dia 24 de agosto, colaboradores locais confirmaram que o animal estava vivo, na costa da ilha de Tobago.


Vídeo Via Angela Ramsey



A boa notícia de que o animal está vivo foi imediatamente acompanhada da urgência de articular o seu resgate e repatriação. Por ter passado muitos dias sem se alimentar, sem beber água doce e num intenso desgaste muscular, o animal precisa de atendimento veterinário para avaliar sua saúde. O deslocamento errático e atípico, provavelmente o mais longo já realizado por um peixe-boi, de mais de 3000 km, mostra que o animal está desorientado e precisa passar por um novo processo de adaptação antes de retornar para a natureza. Há ainda riscos de iniciar um novo deslocamento, o que pode inviabilizar novamente o seu resgate e ameaçar sua sobrevivência. Além disso, o monitoramento de peixes-bois soltos é necessário por período de até um ano para atestar sua adaptação à natureza, tipo atividade que não é executada por instituições e pesquisadores do local.


Além dos fatores relacionados ao bem-estar e sobrevivência de Tico, o seu retorno para o Brasil é fortemente indicado, uma vez que as populações mais próximas de onde ele está, em Trinidade e Tobago, demais países do Caribe, Venezuela, Colômbia e Estados Unidos, possuem caratcterísticas genéticas diferentes e possivelmente pertencem a outra espécie distinta da encontrada no nordeste do Brasil. Dessa forma, uma reprodução entre estes animais de populações ou até mesmo espécies diferentes poderia acarretar em efeitos deletérios a médio prazo para os peixes-bois locais.


A Aquasis está contanto com apoio da Petrobras, ICMBio, IBAMA e órgãos de Trinidade e Tobago para a realização do resgate com maior brevidade possível. O maior desafio tem sido a identificação de aeronave para a realização do transporte do peixe-boi de volta para o Brasil.




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