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Soldadinho-do-Araripe, pássaro nativo do Ceará, foi descoberto há 25 anos

Atualizado: 4 de jan.

Matéria originalmente publicada por Alice Sales para Agência Eco Nordeste

Descoberto há 25 anos, o Soldadinho-do-Araripe, segue criticamente ameaçado de extinção | Foto: Fábio Nunes



Crato – CE. Quem chega à cidade do Crato, na região do Cariri cearense, logo se depara com as mais diversas manifestações artísticas que estampam um pássaro branco, com topete vermelho vivo, pequenos detalhes negros e olhos grená. Basta dar poucos passos no entorno da Igreja Matriz para ver o Soldadinho-do-Araripe (Antilophia bokermanni) impresso nos muros. Não à toa, a ave é um dos símbolos da campanha encabeçada pelo Serviço Social do Comércio (Sesc) Ceará para tornar a Chapada do Araripe patrimônio da humanidade junto à Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). Dentre tantas particularidades naturais da Chapada, é lá o único lugar no mundo onde habita o Soldadinho-do-Araripe. Os passarinhos pintados nos muros pela cidade, contudo, é uma característica relativamente recente. Há 25 anos, a espécie sequer havia sido descrita cientificamente. Neste 15 de dezembro celebramos o 25° ano desde a descoberta do Soldadinho-do-Araripe, ave considerada Em Perigo Crítico pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais (IUCN), cujo o último censo de população, realizado em 2018, estimou apenas 420 indivíduos. No fim deste ano tive a oportunidade de conhecer a Reserva Oásis Araripe, Unidade de Conservação situada no município do Crato, administrada pela Associação de Pesquisa e Preservação de Ecossistemas Aquáticos (Aquasis) com o intuito de contribuir para a conservação desta espécie. Lá, fui recebida e orientada por Weber Girão, pesquisador que, junto ao cientista Galileu Coelho, descreveu a ave pela primeira vez, ainda enquanto estudante universitário, e que há 18 anos empreende esforços em prol da conservação da espécie.


“Eu era estudante de Biologia da Universidade Federal do Ceará (UFC). Foi quando participei de uma aula de campo da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), com o professor Galileu Coelho. Ele já tinha ouvido a ave, mas faltava ver. Fui com ele e vimos juntos. Ele foi generoso em me convidar para descrever a espécie. A descoberta foi no fim da viagem. Peguei o ônibus na rodoviária do Crato e passei a noite com a visão da ave branca na mente. Ainda me esforço para estar à altura daquele momento, tentando agradecer ao não admitir sua extinção,” recorda.

Durante a visita à Reserva Oásis, mata adentro, a fim de avistar a espécie, ouvi seu canto antes mesmo de visualizá-lo entre as frestas de luz e os galhos mais altos das árvores. Trata-se de uma ave territorialista, que ocupa sempre os mesmos espaços na floresta. À medida que caminhava pela trilha, seu canto se fez mais forte e mais próximo. Ali estava ele, diante dos meus olhos. Ou melhor, eles.


“Para cortejar a fêmea, o macho encena um teatro junto a outro macho da espécie. Um persegue o outro voando em círculos na intenção de chamar a atenção dela.” explicou Vitória Camelo, pesquisadora que me guiou pela trilha. E foi exatamente esta a cena que vi: dois Soldadinhos-do-Araripe em pleno teatro, em voos circulares para cair nas graças de uma fêmea tímida, verde-oliva que apareceu entre os galhos, segundos depois. O amor estava no ar para os passarinhos. Um verdadeiro espetáculo da vida selvagem ao vivo e em cores tão bonitas que só as aves possuem. Uma cena de encher o coração de alegria.

Extasiada após essa experiência tão marcante como jornalista e apreciadora de pássaros, conversei com Weber Girão para aprender mais sobre a espécie nativa daquele pedaço do Ceará. De acordo com o pesquisador, uma das principais ameaças para a conservação do Soldadinho-do-Araripe é a qualidade da floresta quanto à presença de espécies de plantas típicas da alimentação da ave e a escassez hídrica, já que as fêmeas fazem seus ninhos e habitam matas de entorno de nascentes.


Como principais estratégias de conservação, o pesquisador destaca o investimento em Unidades de Conservação, para garantir a preservação legal de áreas onde habita a espécie e a manutenção da qualidade de nascentes e florestas, inclusive com o plantio de mudas de plantas que fazem parte da dieta da ave. Em poucas horas de conversa, compreendi que a ave possui muitas particularidades, o que a torna ainda mais incrível e rara.


Fêmea do Soldadinho-do-Araripe no ninho | Foto: Hipólito Ferreira Xavier


Na ocasião, em plena estação reprodutiva, Girão comemorou a postura de dois novos ovinhos encontrados em ninhos na mata. Dias depois, em homenagem aos 25 anos de descoberta do Soldadinho-do-Araripe, o pesquisador escreveu um relato recente e interessante de sua lida para salvar a espécie, além de muito oportuno para a data.

 

"Do ovo ao voo em três ninhos"


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